Técnicos gaúchos comandam o Brasil nas finais da Libertadores

 

A indústria é o ninho da elite do futebol sul-americano. Neste ano, os times que vão para a grande disputa da Taça Libertadores da América têm origem nas fábricas, no setor que nesse tempo era a maior expressão da modernidade no Brasil e na Argentina do início do Século XX.

A mídia vai tratar esse torneio como uma espécie de final de copa entre Brasil e Argentina, uma grande rivalidade do esporte que constitui um clássico mundial. Entretanto, há outras particularidades.

Quando os clubes em disputa foram fundados em Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Buenos Aires, o setor fabril engatinhava ao sul do equador. Essa ligação do futebol com a indústria de transformação é pouco lembrada pelos historiadores.

Na região da bacia do Prata os clubes em questão surgiram bem no início do Século XX: River Plate em 1901, Grêmio em 1903 e Boca Juniors em 1095; no sudeste brasileiro um pouco mais adiante: Palmeiras em 1914 e Cruzeiro em 1921.

O torneio configurou-se com a vitória do Palmeiras sobre o Colo Colo, do Chile, quarta-feira em São Paulo. Também traz essa curiosa formação original dos clubes finalistas desse grande campeonato de nosso subcontinente sul-americano, que rivaliza, em importância futebolística, com a Liga dos Campões da Europa. América do Sul e Europa são a elite do futebol mundial.

Os cinco times que estão se encaminhando para a final têm origem nos subúrbios operários de suas cidades. Os dois argentinos, River Plate e Boca Juniors, nasceram no célebre bairro de La Boca, na zona portuária de Buenos Aires, ambos fundados por imigrantes italianos;  Palmeiras e Cruzeiro tiveram o mesmo nome, Palestra Itália, e as mesmas cores, até serem obrigados a mudar de nome e camisetas quando o Brasil declarou guerra à Itália em 1942: Os dois adotaram cores próximas às da bandeira brasileira: Palmeiras pegou o verde-abacate e o Cruzeiro o azul-celeste.

O Grêmio veio do bairro industrial da Floresta, em Porto Alegre. O time gaúcho não traz uma nítida origem europeia, pois nasceu, em 1903, dentro de um clube já tradicional, a Sociedade Ginástica de Porto Alegre, fundada, em 1867, mas integrada por descendentes dos imigrantes alemães que foram para o Rio Grande do Sul em 1824. A bola, porém, foi doada pelo Rio Grande, primeiro clube futebolístico do Brasil, nascido na sociedade Germânia, de Rio Grande.

Também uma curiosidade é que os três técnicos dos clubes brasileiros que estão na disputa vêm da mesma região do Rio Grande do Sul (metade norte); dois são descendentes de italianos: Renato Portaluppi (do Grêmio),de Bento Gonçalves e  Luiz Felipe Scolari (Palmeiras), de Passo Fundo; Mano Menezes, do Cruzeiro, é Venker por parte de mãe e nasceu numa região de colonização alemã (Passo do Sobrado) no Vale do Taquari.

Os nomes dos clubes também têm coincidências curiosas. Os dois palestras, hoje Cruzeiro e Palmeiras, tinham a denominação de “palestra”, que em italiano significa “academia de ginástica”. O Grêmio, originalmente levava no escudo o dístico “foot ball”, indicando que era um departamento da Sogipa, literalmente uma academia de ginástica, uma das mais antigas do Brasil onde se praticava atletismo e musculação no século XIX.

Já os nomes dos times argentinos vêm do deboche de seus jovens fundadores que botaram palavras inglesas para “dar status”, como disseram os jovens Esteban Agioto, Alfredo Sapato e Santiago Sena, que deram o nome do bairro, Boca, mas logo concluíram que precisava de uma palavra mais chique, e cravaram “juniors” (mal sabiam que júnior é uma expressão latina). Já o River foi mais engraçado. Os jovens futebolistas resolveram fundir dois times mambembes da Boca, Santa Rosa e La Rosales. A ideia, também para dar prestígio, era dar um nome inglês. Depois de descartarem algumas sugestões, o jovem Pedro Martinez mostrou um caixote que recolhera no porto, com a inscrição do destino, “River Plate”. Todos gostaram. E aí pegou, embora nenhum deles soubesse falar inglês.

E assim acaba esta história, como na letra do samba de Stanislaw Ponte Preta. Bola na rede.

 

Fonte: Blog Edgar Lisboa

Foto: Reprodução

 

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